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Projetos Manhattan – Um quadrinho para gênios e malucos

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“Agora eu me tornei a morte, o destruidor de mundos” 
Robert Oppenheimer
Imagine um mundo em que tudo sempre se encaminha para o pior cenário possível, onde o altruísmo é praticamente inexistente, os equívocos e tragédias se acumulam, a mentira é a lei e a violência é uma rotina trivial.

Com certeza, o leitor mais pessimista deve ter pensado: “Não preciso imaginar, esse já é o nosso mundo”, no entanto, não estou falando do nosso trágico mundo real, mas sim de uma versão bem mais caricata e perigosa, um universo fictício em que a lei de Murphy é mais precisa que a da gravidade, o lugar absurdo, cínico e totalmente sombrio retratado na série The Manhattan Projects da Image Comics, escrita por Jonathan Hickman e desenhada por Nick Patarra.

Em nosso mundo o Projeto Manhattan foi o codinome do plano secreto americano de desenvolvimento de armas , durante a segunda guerra mundial, que culminou no lançamento das bombas nucleares sobre o Japão, já na série de Hickman e Pitarra o projeto da bomba foi apenas fachada para trabalhos científicos ainda mais questionáveis e bizarros, como viagem no tempo, exploração de múltiplas dimensões e experimentos biológicos e psíquicos (por essa razão que nos quadrinhos a palavra projeto está no plural) . Nesse universo criado por Hickman a ciência é completamente amoral e sem limite algum, a ética jaz esquecida, provavelmente enterrada no fundo do quintal.

O panorama da história se revela a partir dos eventos da Segunda Guerra, avançando pela Guerra Fria e além, os personagens são caricaturas toscas de personalidades reais, por exemplo; Harry Truman é o presidente americano maçom e fanático religioso que faz orgias na casa branca, Leslie Groves – general que na vida real conduziu o projeto –  é o típico militar durão clichê que você vê em quase todos os filmes de ação, Albert Einstein foi substituído por uma versão extremamente egoísta e alcóolatra de um universo paralelo, Richard Feynman é um narcisista afetado e covarde, Enrico Fermi é na realidade um alienígena que tomou o lugar do verdadeiro quando este era ainda um bebê e Oppenheimer é de longe o personagem mais insano da história, dominado por diversas personalidades psicóticas que se multiplicam constantemente e adepto do canibalismo. Juntam-se a esse elenco outras versões estranhas de personagens reais, alienígenas, robôs e toda uma fauna surreal que só a ficção científica e a fantasia podem nos proporcionar.

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Exemplo de ciência maluca da série

Hickman brinca bastante com os elementos clássicos das histórias em quadrinhos, da ficção científica clássica e do horror trash e isso dá um colorido especial e divertido para toda a série, tudo é exagerado e satírico. Os cientistas são praticamente super gênios do mal como um Lex Luthor ou um vilão dos filmes de James Bond e cenas bizarras como a da cadela Laika matando alienígenas com metralhadoras acopladas são um lugar comum, há muito do surrealismo e das loucuras dos quadrinhos dos antigos.

Os elementos bizarros e o humor negro de Hickman podem talvez esconder os nuances e detalhes interessantes que se encontram abaixo desse carnaval biruta de violência e sarcasmo, mas todos os exageros têm uma função crítica. Hickman nos apresenta uma visão alternativa profundamente ridícula e pessimista da história do século XX, porém a questão que se levanta e se há realmente uma diferença tão brutal entre os acontecimentos históricos e os ficcionais ali retratados. O absurdo das bombas atômicas sobre Nagasaki é o mesmo, a ciência ali também é uma dádiva é uma ameaça, os homens são cinzas, ambíguos e movidos mais por desejos mesquinhos do que por grandes ideais. Olhando-se com cuidado para essas caricaturas dos homens reais que moldaram o nosso mundo, é impossível não se pensar que em algum nível possa haver algo em comum entre eles.

Hoje podemos dizer que existe praticamente uma espécie de culto secular aos grandes gênios, a imagem do artista, do intelectual, do cientista abnegado que tudo faz em prol do futuro da espécie humana é um dos mais fortes mitos modernos. Hickman brinca com esse mito ao retratar ícones como Einstein na forma de monstros e vilões, ele nos lembra de certa forma que esses homens, a despeito de serem grandes gênios e terem realizado coisas incríveis, também eram simples mortais, com defeitos, vícios, fraquezas, ambições e arrogância. Nossa crença na ciência como forma de redenção é tão fantasiosa e deformada quanto o sorriso doentio do Oppenheimer canibal. A ciência é abstração e os homens por trás dela têm seus próprios interesses e muitas vezes os colocam acima de tudo. Não haveria então um pouco de gênio louco e arrogante nos cientistas reais?  Quão tentador é para esses homens tomar o lugar de Deus? Cuspir nos velhos mitos apenas para tomar o lugar deles.

Essa temática sobre os perigos da ciência e os limites éticos de nossas aspirações revolucionárias não é novidade, no trabalho de Hickman, quando ele trabalhou para a Marvel criou uma versão bem diferente do tradicional Sr. Fantástico, nos mostrou um Reed Richards que se distancia da humanidade enquanto buscava incessantemente o objetivo de criar uma utopia científica (Na linha alternativa da Marvel chamada de universo ultimate). É importante porém frisar que não é o discurso de um fanático que julga a ciência um mal terrível, muito pelo contrário, o que está verdadeiramente jogo em Projetos Manhattan e outros trabalhos do roteirista são as contradições de todo projeto edificante que nos promete um paraíso artificial de progresso sem fim, afinal Hickman também não diminui o sarcasmo ao retratar aqueles que se apegam ao obscurantismo e ao retrocesso.

Além da qualidade narrativa da série é importante ressaltar os traços de Nick Pitarra que com seus personagens de narizes largos, cabeças grandes e corpos delgados justamente caricaturas de charges políticas e de tirinhas de jornais reforçando o tom cartunesco do ambiente. O uso das cores azul e vermelho para retratar os flashbacks e sonhos ressaltam a noção de forças contraditórias em permanente conflito sem cair em clichês maniqueístas, já que as cores não são usadas para mostrar condições morais, mas somente as diferentes perspectivas em conflito.

Enfim por todas essas qualidades Projetos Manhattan é uma série bem interessante e merecedora dos prêmios que venceu até agora. Poucas histórias tem a capacidade de te fazer rir e sentir um certo desconforto ao mesmo tempo, ao final de cada edição da revista ficará sempre uma dúvida e uma sensação esquisita cutucando nossas mentes. No fim talvez não seja possível determinar qual dos dois mundos é o mais cruel, o mais absurdo e o mais ridículo, se é aquele que você acabou de visitar nos quadrinhos ou este que te cerca aqui e agora.

Essa é uma questão para a qual talvez não haja resposta, mas enquanto isso a gente pode se divertir lendo os Projetos Manhattan,
A série teve o primeiro volume já publicado no Brasil pela Devir
Abaixo uma declaração do criador da bomba atômica de fazer pensar e de dar calafrios

2 Responses

  1. Ronaldo Junior

    Bom, esse texto só reforça a minha vontade de ler a HQ. E como você bem disse, nossa realidade não está tão distante da retratada na obra, é só olhar nossas eleições ou a dos EUA. Pra rir e chorar ao mesmo tempo!

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